A Câmara dos Deputados decidiu, nesta quarta-feira (10), manter o mandato da deputada Carla Zambelli (PL-SP). A votação terminou em 227 a 170, ficando abaixo dos 257 votos necessários para a cassação. Zambelli segue presa na Itália, para onde fugiu após ser condenada pelo STF.
A decisão do plenário foi na contramão do que havia sido aprovado mais cedo pela CCJ, que recomendou a perda do mandato com apoio até de deputados do centrão. Vale lembrar que, em 2022, Zambelli foi a deputada mais votada entre as mulheres e a terceira colocada geral, ultrapassando 946 mil votos.
A reviravolta começou na terça (9), quando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), surpreendeu lideranças ao anunciar que levaria o caso ao plenário já no dia seguinte. Motta ainda afirmou que, antes do recesso, a Casa vai decidir também o destino de Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e sobre a suspensão de Glauber Braga.
Zambelli foi condenada em maio à perda do mandato e a 10 anos de prisão, acusada de participação na invasão do sistema do CNJ ao lado do hacker Walter Delgatti Neto. Mesmo assim, Coube ao plenário decidir se o mandato seria mantido — entendimento defendido por Motta, que recuou da ideia inicial de apenas homologar a ordem do STF.
Entre os deputados, pesou o já conhecido espírito de autoproteção da Casa e o argumento de que a cassação seria uma medida extrema. Além disso, a votação expôs o clima de desgaste entre o Legislativo e o STF.
Durante as discussões, opositores lembraram o episódio em que Zambelli sacou uma arma e correu atrás de um homem na véspera do segundo turno em 2022 — caso que também resultou em condenação.
Como Zambelli não pôde se defender presencialmente, sua fala foi representada pelo advogado Fabio Pagnozzi, que afirmou que, mesmo se mantivesse o mandato, ela renunciaria em seguida “para não incomodar os colegas”. Ele sustentou ainda que a deputada não ordenou a invasão do CNJ e que a acusação se apoia apenas no depoimento de um hacker. Pagnozzi também disse que a cassação abriria um “precedente perigoso”, já que mais de cem deputados respondem a ações no STF.
Zambelli chegou a participar remotamente da reunião da CCJ mais cedo, enquanto seu filho acompanhava presencialmente. Ela reiterou que é vítima de perseguição política e criticou o Supremo.
Já deputados da base do governo apontaram o óbvio: mesmo com o mandato mantido, ela não tem como exercer a função presa no exterior — e deve ser cassada futuramente por faltas. “Na prática, ela já está cassada”, resumiu Lídice da Mata (PSB-BA).
O parecer aprovado pela CCJ, assinado por Cláudio Cajado (PP-BA), reforçava esse ponto, destacando que a condenação é definitiva, a pena é em regime fechado e a deputada está detida na Itália, impedida de atuar.
Zambelli fugiu passando por Argentina e Estados Unidos antes de chegar à Itália, onde foi presa no fim de julho. Segundo a acusação, Delgatti teria emitido uma ordem de prisão falsa contra Alexandre de Moraes a pedido dela — algo que a deputada nega, dizendo que só soube da fraude depois que o hacker lhe enviou os arquivos manipulados.
Mesmo com toda essa turbulência, o plenário optou por mantê-la no cargo — ao menos, no papel.