Segue uma reescrita ampliada e enriquecida, incorporando informações históricas adicionais amplamente documentadas sobre o Patinho Feio, mantendo linguagem narrativa e jornalística:
Do lado de fora do prédio da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, autoridades começavam a chegar. O então governador de São Paulo, Laudo Natel, o reitor da USP, Miguel Reale, e o bispo Dom Ernesto de Paula integravam a pequena comitiva que testemunharia um marco inédito na história da ciência nacional: a primeira exibição pública do Patinho Feio, o primeiro computador desenvolvido integralmente no Brasil.
Pouco antes do início da demonstração, no entanto, o clima solene foi interrompido de forma abrupta. Um repórter, ao tentar fotografar o equipamento mais de perto, inclinou-se além do necessário, tropeçou em um dos cabos e acabou desligando o computador diante de todos.
O silêncio que se seguiu deixou claro o tamanho do problema. Naquele equipamento, nada permanecia salvo. Diferentemente dos computadores atuais, dotados de memória não volátil, o Patinho Feio perdia todas as informações assim que a energia era cortada. Cada instrução da demonstração havia sido inserida manualmente, bit a bit, por meio de chaves e interruptores. Em questão de segundos, todo o trabalho havia desaparecido.
A solução precisou ser improvisada ali mesmo. Um dos estudantes passou a ditar, passo a passo, as instruções previamente preparadas. Diante do painel frontal da máquina, outro aluno reintroduziu manualmente cada comando, acionando uma a uma as chaves do sistema binário.
Somente após esse esforço coletivo o computador pôde ser religado. O programa da demonstração foi novamente carregado no equipamento de saída e, diante do público, a máquina respondeu imprimindo o famoso desenho de um pato formado por uma sequência de “X”, seguido da frase que entraria para a história da computação brasileira: “Eu sou o patinho feio”.
Primeiros passos da computação nacional
O Patinho Feio nasceu em um período de profundas transformações tecnológicas no mundo. Na década de 1960, computadores ainda ocupavam salas inteiras, consumiam grande quantidade de energia e eram restritos a governos, universidades e grandes corporações. Mesmo assim, já se desenhavam como ferramentas centrais para a reorganização da economia, da ciência e da administração pública.
“Era possível perceber que se tratava de um ponto de inflexão no caminhar da existência humana”, afirmou anos depois José Sidnei Colombo Martini, professor titular da Poli e um dos principais idealizadores da máquina.
Para o Brasil, compreender essa transformação e participar ativamente dela era estratégico. O desenvolvimento do Patinho Feio coincidiu com o período do regime militar, quando a informática passou a ser vista como um setor sensível à soberania nacional. Computadores já eram utilizados em áreas como defesa, telecomunicações, planejamento estatal e pesquisa científica, e o governo temia uma dependência excessiva de equipamentos importados.
Caso o país se limitasse a comprar máquinas estrangeiras, não desenvolveria conhecimento interno em áreas como eletrônica digital, arquitetura de computadores e programação de baixo nível, ficando vulnerável a embargos, flutuações cambiais e interesses externos.
A política adotada pelo governo baseava-se em duas frentes principais. A primeira era o fortalecimento das universidades e centros de pesquisa, com incentivo à formação de especialistas e à criação de laboratórios dedicados à computação. A segunda era a chamada reserva de mercado, que restringia a entrada de equipamentos estrangeiros e estimulava empresas e instituições nacionais a desenvolver suas próprias soluções.
Na Escola Politécnica da USP, esse cenário encontrou terreno fértil. Em 1968, o professor Antônio Hélio Guerra Vieira fundou o Laboratório de Sistemas Digitais (LSD), hoje conhecido como Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS). O laboratório se tornaria um dos berços da computação acadêmica no país.
Pouco depois, a Poli contratou Glen Langdon, engenheiro da IBM que se encontrava licenciado da empresa. Ele passou a ministrar, na pós-graduação, a disciplina “Projetos de Sistemas Digitais”. O trabalho final do curso era ambicioso: projetar uma máquina computacional completa, do zero.
A proposta rapidamente ultrapassou os limites da sala de aula. A direção da escola percebeu que o projeto tinha potencial para se transformar em um protótipo real. O então diretor Oswaldo Fadigas iniciou a busca por recursos que viabilizassem a construção do computador.
Nesse mesmo período, a Marinha do Brasil avaliava alternativas para equipar seus navios com tecnologia nacional, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros. A instituição passou a financiar projetos universitários com potencial estratégico, e o grupo da Poli foi incorporado a esse programa, passando a receber aportes regulares.
“Foi o período mais fácil para conseguir verba”, recorda Edith Ranzini, professora sênior da Poli e responsável pela preservação da memória do Patinho Feio. “Eles não pediam projetos extensos nem relatórios intermináveis. A cada três meses perguntavam apenas: ‘De quanto vocês vão precisar nos próximos meses?’.”
O movimento não se restringiu à USP. Outras universidades também passaram a investir no desenvolvimento de computadores experimentais. Na Unicamp, surgiu o projeto Cisne Branco, referência simbólica à ideia de elegância tecnológica.
O nome acabou inspirando brincadeiras entre os pesquisadores paulistanos. Se Campinas tinha um cisne, como deveria se chamar o computador da Poli? Em uma reunião no laboratório, o engenheiro Paulo Patullo sugeriu, em tom bem-humorado, o nome Patinho Feio — uma alusão à aparência rudimentar da máquina e ao fato de estar longe do glamour dos computadores estrangeiros. O apelido foi imediatamente adotado e acabou se tornando um dos nomes mais emblemáticos da história da tecnologia brasileira.
Apesar da simplicidade, o Patinho Feio cumpriu um papel decisivo: formou gerações de engenheiros, consolidou a pesquisa em computação no país e provou que o Brasil era capaz de projetar e construir seus próprios computadores, abrindo caminho para toda a indústria nacional de informática que surgiria nas décadas seguintes.