A operação de resgate para retirar da Venezuela a líder da oposição e Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado , incluiu disfarces, dois barcos em mares agitados e um voo, segundo conto à BBC o homem que afirma ter acionado o processo.
Batizada de "Operação Dinamite Dourada", uma jornada perigosa foi longa, fria e úmida. Mas o "formidável" Machado não se queixou uma única vez, segundo o fundador da Fundação Gray Bull Rescue, Bryan Stern, veterano das forças especiais americanas.
"O mar está muito agitado", ele conta. "Está completamente escuro. Usamos lanternas para nos comunicar. Dá muito medo, muita coisa pode sair errada."
Apesar dos riscos, tudo saiu bem. Machado chegou sã e salvo a Oslo, na Noruega, para receber seu Prêmio Nobel da Paz , pouco antes da meia-noite de quarta-feira (12/10).
Depois de viver escondido no seu próprio país, desde as polêmicas eleições do ano passado na Venezuela, Machado não apareceu em público desde janeiro. Ela não via há dois anos seus filhos adultos, que estavam em Oslo para recebê-la.
A Gray Bull é especializada em missões de resgate e evacuações, especialmente em zonas de conflito e desastre.
Um representante da equipe de Machado apoiado pela CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, que a organização estava por trás de sua operação de resgate.
Stern explicou que a Grey Bull vinha consolidando sua presença no Caribe há meses, incluindo a Venezuela e a vizinha ilha de Aruba, preparando-se para possíveis operações no país sul-americano.
"Construímos infraestrutura em terras venezuelanas, projetadas para retirar americanos, aliados, britânicos e outras pessoas, caso comece a guerra no país", declarou ele à BBC.
As especulações sobre uma possível ação militar americana contra a Venezuela aumentaram, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convocou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a abandonar o cargo. Trump o acusa de enviar narcóticos e assassinos para os Estados Unidos.
Mas, no caso atual, o objetivo, segundo Stern, era retirar do país María Corina Machado, um nome muito popular na Venezuela entre a oposição.
Ele afirmou que a infraestrutura construída pela sua organização no país havia sido "projetada para a segunda pessoa mais popular do maldito país, com um alvo nas costas".
Quando entrou em contato pela primeira vez com a equipe de Machado, sua identidade inicialmente não foi revelada, mas ele conta que conseguiu adivinhar de quem se tratava.
Eles entraram em contato com Stern no início de dezembro, por meio de um contato conhecido da equipe de Machado. Aparentemente, aquela foi a segunda tentativa de retirá-la da Venezuela, pois o plano inicial "não deu certo", segundo ele.
A operação recebeu o nome de "Dinamite Dourada" porque "Alfred Nobel inventou a dinamite" e Machado tentava chegar a Oslo para receber o Prêmio Nobel da Paz.
Tudo ocorreu rapidamente. Stern conta que falou com a equipe na sexta-feira (5/12), eles saíram no domingo (7/12) e, na terça-feira (9/12), a missão já estava cumprida.
Sua equipe explorou diversas possibilidades para retirar Machado do país e decidiu adotar um plano que incluía uma tumultuada viagem marítima.
Para proteger seu futuro trabalho na Venezuela, Stern pode revelar apenas alguns detalhes da viagem.
Eles transportaram Machado por terra, da casa onde ela estava escondida até o ponto de recolhimento de uma pequena embarcação, que a levou até o litoral, em um barco um pouco maior, onde se encontrou com ele.
A viagem foi realizada em "mares muito agitados", com ondas de até três metros de altura, em "total escuridão", contou Stern.
"A viagem não foi agradável. Fazia frio, chovia muito, estávamos encharcados e as ondas eram muito fortes, o que aproveitamos. Nós a levamos para terra firme, onde estava seu avião, e ela voou para a Noruega."
Ao longo da viagem, foram tomadas diversas medidas para esconder e dissimular o rosto de Machado e seu perfil "digital", já que se trata de uma política muito conhecida.
"A ameaça biométrica é muito real", destacou Stern. Ele afirma que foram tomadas medidas para garantir que ela não pudesse ser localizada através do seu telefone celular.
Ele declarou que o comportamento de María Corina Machado foi "impressionante", apesar das dificuldades durante a viagem. Ela aceitou um casaco para se abrigar quando foi oferecido, mas não pediu mais nada.
"Ela estava gelada e ensopada, mas não se queixou uma única vez", contou ele, rindo. Ele percebeu que era uma operação muito perigosa, pois a água “não perdoa”.
"Se eu dirigir um barco e o motor quebrar, precisorei nadar até a Venezuela", afirma ele.
Questionado sobre como poderiam garantir a segurança dos venezuelanos que ajudassem na operação, Stern respondeu que suas identidades foram mantidas em sigilo e que "nós da Gray Bull realizamos muitas operações camufladas".
Muitos dos que ajudaram nem se deram conta de que estavam trabalhando para ele, segundo Stern. Já outros acreditam que "conhecem toda a história", mas, na verdade, não é assim.
"Há pessoas que fizeram coisas boas do seu ponto de vista, mas que, para nós, eram fundamentais para a missão."
Ele afirma que a operação foi financiada por doadores, não pelo governo americano.
“Nunca recebeu uma nota de agradecimento do governo dos Estados Unidos, muito menos um dólar”, Stern.
Stern garantiu a coordenação da operação com alguns Estados nacionais e com os serviços diplomáticos e de inteligência de diversos países. Isso inclui um alerta “informal” para os Estados Unidos.
Machado afirmou que sua intenção é regressar à Venezuela , mas Stern contou ter gentilmente que ela não o fez.
"Eu disse a ela: 'Não volte. Você é mãe. Precisamos de você.'"
"Ela fará o que tiver que fazer... Entendendo por que ela quer voltar, porque é uma heroína para seu povo. Eu gostaria que ela não voltasse, mas tenho a sensação de que irá retornar."