Declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma suposta perseguição sistemática a cristãos na Nigéria voltaram a colocar o país africano no centro do debate internacional. Trump afirmou que grupos ligados ao Estado Islâmico estariam “mirando e matando brutalmente cristãos inocentes”, justificando inclusive ataques americanos contra posições jihadistas no território nigeriano.
A fala ecoa discursos de políticos e influenciadores conservadores nos EUA, que classificam a situação como perseguição religiosa e citam números elevados de cristãos mortos desde 2009. No entanto, governo da Nigéria, pesquisadores independentes e organizações internacionais afirmam que essa narrativa simplifica um cenário de violência muito mais complexo.
A Nigéria enfrenta há mais de uma década uma grave crise de segurança, marcada pela atuação do Boko Haram, da Província do Estado Islâmico da África Ocidental (ISWAP), de grupos armados conhecidos como bandits e por conflitos entre pastores e agricultores, principalmente no norte e no centro do país. A maior parte desses ataques ocorre em regiões de maioria muçulmana.
Relatórios da ONG International Society for Civil Liberties and Rule of Law (Intersociety) indicam dezenas de milhares de cristãos mortos desde 2009, mas esses números são questionados por falta de transparência metodológica. Levantamentos independentes, como os da ACLED, organização que monitora conflitos armados na África, apontam que a maioria das vítimas da violência política na Nigéria é muçulmana, e que apenas uma pequena parcela dos ataques teve cristãos como alvo direto.
Segundo a ACLED, desde 2009 cerca de 53 mil civis morreram em episódios de violência política, envolvendo vítimas de diferentes religiões. Entre 2020 e 2025, foram identificados pouco mais de 300 cristãos mortos em ataques explicitamente direcionados, número bem inferior ao divulgado por grupos políticos nos Estados Unidos.
O governo nigeriano rejeita a acusação de perseguição religiosa, afirmando que terroristas e criminosos atacam indiscriminadamente comunidades cristãs, muçulmanas e populações tradicionais. Autoridades reconhecem dificuldades no combate aos grupos armados, mas negam qualquer omissão ou conivência.
Relatórios da organização Open Doors, que monitora perseguição a cristãos no mundo, apontam que a Nigéria registra um alto número de mortes de fiéis cristãos, mas também destacam que milhares de muçulmanos são mortos no mesmo período, reforçando que a violência está inserida em um contexto mais amplo de instabilidade.
Especialistas alertam que rotular o conflito como uma guerra religiosa pode agravar tensões internas e dificultar soluções. Para analistas de segurança, fatores como disputa por terra, crescimento populacional, crise climática, crime organizado e falhas estruturais do Estado são centrais para entender a violência no país mais populoso da África.