O que o consumo de carne de burro na Patagônia revela sobre a atualidade da Argentina

Com a carne bovina cada vez mais cara, consumidores começam a buscar alternativas inusitadas até em regiões tradicionais como a Patagônia

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A carne bovina sempre foi quase um símbolo nacional na Argentina — famosa pela maciez e qualidade, presença garantida na mesa e motivo de orgulho cultural. Só que essa realidade vem mudando, e rápido. Com os preços subindo acima da inflação, muita gente tem sido obrigada a repensar o que vai pro prato.

 

Nesse cenário, uma alternativa improvável começou a chamar atenção: a carne de burro. Em Trelew, na Patagônia, a novidade virou assunto depois que um projeto piloto passou a oferecer cortes e pratos feitos com esse tipo de carne em açougue e restaurante local.

 

E não foi só curiosidade: deu fila. Teve empanada, linguiça, churrasco — e tudo acabou rápido. Segundo relatos, muita gente quis experimentar e aprovou. A carne é descrita como parecida com a bovina, só que mais escura e com menos gordura.

 

Mas o interesse não vem só da novidade gastronômica. O preço pesa — e muito. Enquanto o quilo da carne de burro gira em torno de 7.500 pesos (cerca de R$ 27), a carne bovina pode custar quase o triplo. Em tempos de aperto, isso faz diferença.

 

A Argentina vive um momento econômico delicado, com inflação acumulada alta e forte impacto no consumo. Só a carne bovina já subiu mais de 50% em algumas regiões no último ano. O resultado? O consumo caiu e atingiu o menor nível em cerca de duas décadas.

 

Historicamente, o argentino sempre foi conhecido como um grande consumidor de carne bovina. Décadas atrás, o consumo passava de 80 quilos por pessoa ao ano. Hoje, esse número caiu bastante, enquanto frango e carne suína ganharam mais espaço.

 

Apesar da repercussão, especialistas dizem que a carne de burro ainda é algo pontual, sem impacto real no mercado. Mesmo assim, o episódio revela uma mudança importante: quando o bolso aperta, até tradições muito fortes começam a ser questionadas.

 

Curiosamente, o projeto não nasceu por causa da crise atual. A ideia surgiu antes, como uma alternativa adaptada às condições difíceis da Patagônia, onde o clima e o terreno complicam a criação de outros animais. O burro, mais resistente, acabou sendo uma solução prática.

 

No fim das contas, mais do que uma simples curiosidade, a história mostra como a economia influencia diretamente o dia a dia das pessoas — até mesmo naquilo que parecia intocável, como o clássico churrasco argentino.

 


FONTE: BBCnews
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