Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, em parceria com a UCLA e o Scripps Institution of Oceanography, confirmou pela primeira vez com dados reais o avanço de uma massa de água quente das profundezas do oceano Austral em direção à Antártida.
A pesquisa, divulgada em 28 de abril de 2026 na revista científica Communications Earth & Environment, revela que a chamada Água Profunda Circumpolar (CDW, na sigla em inglês) está avançando cerca de 1,26 quilômetro por ano em direção ao continente gelado.
Segundo os cientistas, esse movimento representa uma ameaça direta às plataformas de gelo antárticas, que funcionam como uma espécie de “barreira de contenção” para as geleiras.
Água quente ameaça derreter o gelo por baixo
Embora a temperatura dessa água fique pouco acima de 0°C, ela é suficientemente quente para provocar o chamado derretimento basal, que ocorre quando o calor corrói a base das plataformas de gelo.
Esse processo é considerado especialmente perigoso porque enfraquece as estruturas de sustentação do gelo de forma silenciosa, sem sinais imediatos na superfície.
“É preocupante, porque essa água quente pode fluir por baixo das plataformas de gelo da Antártida, derretendo-as por baixo e desestabilizando-as”, afirmou o pesquisador Joshua Lanham, líder do estudo.
Confirmação de uma previsão antiga
Modelos climáticos já indicavam esse comportamento há quase 20 anos, mas até agora faltavam evidências concretas.
Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram duas décadas de medições feitas por navios oceanográficos, boias robóticas do sistema Argo e ferramentas de inteligência artificial.
Com isso, foi possível reconstruir um histórico detalhado da circulação oceânica até 2.000 metros de profundidade.
Impacto global
A Antártida concentra gelo suficiente para elevar o nível médio dos oceanos em aproximadamente 58 metros, segundo dados da NASA.
Embora esse seja um cenário extremo e improvável no curto prazo, o derretimento de plataformas específicas pode acelerar a perda de gelo continental e contribuir gradualmente para o aumento do nível do mar.
O que isso significa para o Brasil
Mesmo distante da Antártida, o Brasil pode sentir os efeitos desse processo.
Cidades costeiras como Rio de Janeiro, Recife, Santos, Florianópolis e Salvador estão entre as áreas vulneráveis à elevação do nível do mar.
Portos importantes, como Santos e Paranaguá, além de estruturas offshore do pré-sal, também podem ser impactados por mudanças na dinâmica oceânica.
Mais um sinal do aquecimento global
O estudo reforça o alerta de que as mudanças climáticas já estão em curso e produzem efeitos concretos nos oceanos e nas calotas polares.
Para os pesquisadores, a descoberta mostra que o aquecimento global não é apenas uma projeção futura, mas um fenômeno que já está alterando sistemas fundamentais do planeta.